Rubens Júnior

A quem interessa a crítica exacerbada de qualquer natureza à Idade Média?

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Há circulando na internet diversas críticas, muitas vezes veladas, contra a Idade Média, rotulando-a de “Idade das Trevas”; há também críticas específicas quanto ao estilo e à qualidade de vida dos medievais. Dias atrás, vi alguns vídeos que circulam nas redes nos quais se criticam a vida e a higiene da época, apontando a suposta falta de banhos frequentes e a ausência de saneamento. Há críticas à medicina, descrita como baseada puramente em superstição, curandeirismo, uso cego de sanguessugas e completa ignorância anatômica. Critica-se a Justiça e o Direito, alegando o uso de aparelhos de tortura sádicos, barbárie jurídica, punições desproporcionais e fanatismo inquisitorial. Fala-se em miséria absoluta dos camponeses e opressão tirânica dos senhores feudais; em opressão feminina total, uso de cintos de castidade e caça às bruxas generalizada. Aponta-se um fanatismo cego, o teocentrismo como freio absoluto do progresso, intolerância institucionalizada, barbárie constante, desordem civil ininterrupta e brutalidade desmedida. Essas e muitas outras acusações compõem o cardápio da crítica moderna sobre a Idade Média. Muitas delas são exageradas, outras nem tanto, e há ainda aquelas que são mentirosas.

A aversão à Idade Média não nasceu de fatos, mas de uma propaganda deliberada construída em momentos sucessivos da história. Antes de examinar essa propaganda, é preciso compreender o que, de fato, foi o período medieval.

A Idade Média foi um período de grandes cabeças pensantes, responsável por consolidar instituições e métodos que marcaram a história intelectual do Ocidente. Ela foi a era em que se firmaram as universidades, se desenvolveu o método escolástico e se sistematizou uma lógica de discussão que ajudou a preparar o terreno para a ciência moderna. Mais do que isso, foi o palco de filósofos surpreendentes como Tomás de Aquino, Anselmo de Cantuária e Guilherme de Ockham, cuja profundidade intelectual é venerada até hoje. O legado desses pensadores foi tão formidável que construiu a base filosófica estrutural com a qual até mesmo os grandes gigantes seculares de épocas posteriores, como Kant e Hegel, precisaram inevitavelmente dialogar e debater. Por ter produzido grandes doutrinas, ter valorizado ordem e hierarquia e ter sido o berço dessas mentes brilhantes do Ocidente cristão, o período acaba se tornando alvo de críticas no presente. Assim, a crítica exagerada à Idade Média não se limita a “higiene” ou “tecnologia”, por exemplo, ela, muitas vezes, funciona como um ataque velado aos valores transcendentes que a sociedade medieval representava.

O incômodo moderno com esse período vem de três pilares fundamentais: a Verdade Objetiva, a Hierarquia e Ordem e o Legado Teológico.

(1) A sociedade medieval acreditava numa Verdade revelada e imutável. O mundo moderno, marcado pelo relativismo, vê essa certeza doutrinária como "opressão" ou "intolerância".

(2) Era uma sociedade estamental e hierárquica, onde cada um tinha deveres claros diante de Deus e do Rei. Isso ofende a sensibilidade igualitária moderna, que vê qualquer hierarquia como opressão e injustiça.

(3) Além disso, embora a Reforma Protestante tenha corrigido desvios soteriológicos da Igreja Romana, ela manteve a base teísta e o respeito pelas Escrituras que permeavam o medievo. Atacar a Idade Média é, frequentemente, uma estratégia secular para deslegitimar todo o passado cristão do Ocidente.

A Quem Interessa a Crítica Exagerada à Idade Média?

Hoje, quem mais critica a Idade Média são ateus e secularistas que desejam remover a religião da vida pública. Como foi o período em que a fé cristã mais estruturou uma civilização inteira — catedrais, universidades, direito canônico, escolástica, atacá-la equivale a atacar a premissa de que fé e razão são compatíveis. Se o homem medieval era sujo e ignorante, por exemplo, segue-se (na lógica deles) que "a religião produz ignorância", uma conclusão que beneficia diretamente o ateísmo moderno.

A Idade Média incomoda o relativismo porque foi uma civilização que acreditava na Verdade Objetiva e revelada. Incomoda o igualitarismo moderno porque foi uma sociedade que via na Hierarquia e na Ordem o reflexo da própria harmonia celeste, onde cada indivíduo encontrava dignidade e propósito servindo a um dever maior, e não disputando poder numa luta de classes. Incomoda o secularismo porque seu Legado Teológico provou que a Fé não é inimiga da Razão, mas sua mestra e guardiã. Foi no seio do medievo que as raízes da fé reformada começaram a brotar com pré-reformadores e o aprofundamento das Escrituras, erguendo a base teísta que impulsionaria, nos séculos seguintes, os maiores progressos intelectuais, civis, artísticos e científicos que o Ocidente já conheceu.

Critica-se a Idade Média não porque ela foi ruim, mas porque ela foi cristã.

Ao ridicularizar os medievais, o crítico moderno sente-se superior moralmente e intelectualmente, validando o seu próprio abandono da tradição e da fé. Reconhecer a grandeza de Tomás de Aquino, Anselmo ou das catedrais góticas seria admitir que é possível haver alta cultura e ciência sem se curvar ao secularismo moderno. A crítica atual é disfarçada de intelectualidade, mas o seu alvo é a credibilidade da ordem transcendente, isto é, a ideia de que Deus governa a história, que a razão serve à fé, e que há uma lei moral que antecede o Estado.




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